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Boris Johnson, o farol

Boris Johnson é uma referência cada vez mais inexorável e inspiradora para os defensores da Democracia Liberal; e sobremaneira para Liberais e Conservadores. De palhaço a mentiroso, de incompetente a irresponsável, de buffon a Trump, ouvimos tudo sobre Boris Johnson. Poucos, porém, se deram ao trabalho de o compreender melhor. Poucos se deram ao trabalho de perceber porque é que Boris tem um busto de Péricles no seu gabinete, ou porque é que prefere a Grécia (na verdade Atenas) a Roma. Poucos se deram ao trabalho de ler o que ele escreve e como escreve. A maior parte ficou-se pelos gags, pela cabeleira loura despenteada, optando sempre pela caricatura em detrimento do real.
Em 90 dias Boris foi abandonado por colegas de partido, boicotado pelo parlamento, impedido de ir a eleições, impedido de cumprir a vontade popular expressa em referendo nacional com uma participação de 72%, condenado em tribunal, gozado por chefes de estado europeus, negado na intenção de um acordo de saída melhor e aceitável para o Reino Unido, e vaticinaram-lhe o mandato de Primeiro-Ministro mais curto da história. Boris venceu tudo e venceu todos.
Como?
Roger Eatwell e Matthew Goodwin, no seu livro National Populism: The Revolt Against Liberal Democracy , publicado no ano passado, identificam quatro tendências (4 Ds) que, segundo eles, estão a redesenhar a política no Ocidente; a saber: a Desconfiança das elites que ignoram a maioria dos eleitores e os tratam com condescendência, a Destruição da noção de comunidades locais e nacionais em nome do globalismo, a (Deprivation) privação relativa dos muitos – experimentada como absoluta à escala individual – face à riqueza dos poucos, e o Desalinhamento do eleitorado face aos partidos tradicionais, que aos seus olhos representam essa elite.
A verdade é que, pelo Ocidente, enquanto assistimos à extrema polarização do debate político e à fragmentação do eleitorado em excessos de escrúpulos identitários, e nos preocupamos em apontar o dedo aos democratas iliberais (vulgo populistas), que todos sabemos, à esquerda e à direita, quem são, frequentemente ignoramos o risco igualmente preocupante que vem dos anti-democratas liberais (vulgo status quo), que são os que acusam o eleitorado de  basket of deplorables, os que teimam em ignorar o Brexit, ou os que se estando a “ca*** para o segredo de justiça” impõem limites à utilização da palavra “vergonha”.
Boris Johnson, que é um democrata liberal, foi capaz como mais ninguém na Europa, de secar os populistas e de afrontar o status quo. Incorporando parte do discurso populista, mas conformando também o eleitorado mais centrista e moderado, preocupado com o dia-a-dia e em ter perspectivas de futuro. O que ele tem feito é notável e merece ser estudado muito atentamente. A capacidade de síntese política do Boris Johnson, aliada aos seus valores políticos, é um bem raríssimo e precioso.
À direita, por toda a Europa, e particularmente em Portugal, onde as lideranças dos partidos tradicionais dessa área se discutem, importa ter essa capacidade de síntese, essa capacidade de propor soluções úteis, projectos aspiracionais e voltados para o futuro. Perder-se nos labirintos da (re)criminalização do aborto, da censura “moral” dos homossexuais, nos saudosismos do Deus, Pátria e Família e deixar-se cair na tentação de ignorar Jesus (Mateus 22:21), trazendo a Bíblia e o Catecismo da Igreja Católica para onde reina César (juro que não é uma piada ao Carlos), é assegurar um minoritário voto identitário, enquanto se entrega de mão beijada o poder à esquerda.


Consta que Dominic Cummings, o principal estratega de Boris Johnson, e mastermind do Brexit, quando estava a organizar a campanha Leave, rejeitou o apoio do UKIP de Nigel Farange e o dinheiro de Arron Banks. Porquê? Porque segundo ele, Farange e Banks garantiam um apoio muito forte dos seus militantes, mas quanto mais forte fosse o apoio desses militantes, menor seria a possibilidade de atrair novos eleitores; já que os primeiros afastariam os segundos. No fundo, a sua força identitária era a sua fraqueza eleitoral.
A direita conta com um património de valores inalienável, da defesa da Liberdade e da Democracia à defesa do indivíduo e da família e do seu acesso ao elevador social. Para lá disso, em Portugal, se há partido ligado à ideia de uma elite decadente nos termos em que Eatwell e Goodwin a definem, esse partido, mais que qualquer outro, é o Partido Socialista (PS). Outra estratégia, à direita, que não passe pela síntese, pelo que une, pelo futuro e pela alternativa ao socialismo, só pode correr bem… ao PS.
Na dúvida? Na dúvida é olhar para Boris Johnson, o farol. A luz? Repito e sintetizo: síntese política, não ignorar as tendências do eleitorado, defesa da democracia liberal e propostas de futuro.
Post Scriptum: Boris Johnson é um Conservador, que não passa a vida a gritar que é de direita, é divorciado, foi adúltero, persistem dúvidas sobre quantos filhos tem, defendeu o casamento entre pessoas do mesmo sexo e durante o seu tempo como Mayor de Londres foram pintadas passadeiras arco-íris pela cidade. Jacob Rees-Mogg, o muito conservador católico apostólico romano, com a alcunha de Honourable Member for the Eighteenth Century é um dos seus principais apoiantes. Estão ambos no Governo de Sua Majestade, tendo derrotado de forma expressiva a esquerda mais esquerdista de que o Reino Unido tinha memória.
[Publicado, em 22 de Dezembro de 2019, no Observador: Boris Johnson, o farol ]

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