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A mostrar mensagens com a etiqueta Textos políticos

Do Big Brother à decadência das elites

O  Big Brother  faz 20 anos e a TVI resolveu celebrar a data com uma nova edição do programa. Dizem os especialistas que o  Big Brother  revolucionou a televisão. Revolucionou é a palavra. Das revoluções não se pode esperar nada de bom. Seguro é que nestes 20 anos o  Big Brother  fez escola. O país, esse, perdeu o escol. Vamos nós primeiro ao que fez escola e depois ao escol, já que muito escol preferiu ir pouco à escola. O  Big Brother  inaugurou um género televisivo onde as massas ganharam protagonismo. Os modos de falar, as mundividências – e já agora a ausência de mundo e de vidências também –, as egomanias e as artificialidades e sobretudo as emoções dos homens e das mulheres comuns ganharam palco. E os que estavam em casa, entre os que se reviram e os que se reviraram, identificaram-se por simpatia ou por rejeição. Neste caminho, o que a televisão – então o alfa e o omega da comunicação social, depois que o  video killed the radi...

De quarentena na Quaresma

Quero começar por fazer aqui um elogio público à lucidez do Sr. Primeiro-Ministro. Há poucas horas – a unidade de medida adequada – veio apelar que o povo português confiasse nas autoridades da saúde. O SNS está repleto de funcionários públicos extraordinários, de grande abnegação, imensa competência, elevada resiliência e diga-se, porque não é dizer pouco a meio de uma  pandemia  com contornos ainda mal definidos, extrema coragem pessoal. Este é, no que importa mais imediatamente, um caso de Saúde Pública. E nada melhor que nos entregarmos nas mãos de quem sabe. Isto porque estamos em tempo de excepção, já que o efeito desta situação, do ponto de vista das liberdades, merecerá, no fim, um outro debate importante. Mas isso, e a economia, terá de ficar para depois. Sendo, porém, Portugal, um país onde tudo tem tutela estatal, este é também, inexoravelmente, um caso de gestão política. O nosso habitual elo mais fraco. Vejamos, então, se as Autoridades da Saúde têm as melhor...

O fraco Homem faz forte o fraco Estado

1 O Homem Português desistiu de viver.  Matem-me, que isto não é vida! , gritou. Paz à sua alma. No passado dia 20 o parlamento aprovou cinco projectos-lei visando legalizar a eutanásia. Muitos dos opositores apressaram-se a dizer que os deputados não estavam mandatados para tomar esta decisão, e que a mesma estava a ser tomada nas costas dos portugueses. Têm razão. A decisão foi tomada nas costas dos portugueses, mas pelo menos cumpriu a última vontade do Homem Português. 2 Francisco Lucas Pires, de cognome  O Liberal , é muitas vezes recordado pela célebre afirmação de que  ao princípio não era o Estado mas o Homem. É esta uma verdade em função da qual será o Estado a ter de se humanizar – não o Homem quem tem de se estadualizar.  Dificilmente 2020 o poderia ter contrariado de forma mais cruel, qual O’Brien a Winston Smith em 1984. O Homem Português quando nasce fica a saber que só pode ter, no máximo, dois nomes próprios e quatro apelidos, mas que está ob...

A direita, entre cosmos e taxis [Parte II: os fins]

Na primeira parte deste artigo vimos por que razão os partidos de direita deveriam recusar ser palcos de guerras culturais, evitar tentações ideológicas e procurar alinhar-se com o espírito do tempo presente. Em síntese, os partidos de direita, mais do que procurarem a imposição de um outro quadro de valores, alternativo ao da esquerda, deverão ter a sua acção assente na defesa da liberdade de cada pessoa viver como quiser. Sabemos como nestes tempos esta posição tem sido acusada por muitos de relativismo moral, mas tal não só é ignominioso, como é profundamente enganador. Querer forçar, em nome de um projecto  by design  – de tipo  taxis , voltando a Hayek – a sociedade a ser de determinada maneira costuma resultar em catástrofe. Oakeshott, insuspeito de esquerdismo, dizia que a conjugação de normatividade e idealismo redunda em tirania. Talvez valha reconhecer que a humanidade nunca viveu tão bem como agora, nunca atingiu níveis generalizados de conforto tão elevad...

A direita, entre o cosmos e taxis [Parte I: os princípios]

O título deste artigo pode bem induzir o leitor mais incauto a pensar que a direita deve escolher entre abrir-se ao cosmos, ao outro e ao imenso, ou fechar-se entre os seus e caber num táxi; ou, vá, em dois ou três. Isso também é verdade, e até pode encontrar correspondência na segunda parte deste artigo (os fins), mas não é esse o ponto que pretendo explorar nesta primeira (os princípios). Hayek, no segundo capítulo do seu  Law, Legislation and Liberty , desenvolve um tema especialmente caro às direitas, que porventura nunca como agora – pelo menos nos últimos 50 anos – foi tão fracturante: a ordem. De acordo com o autor, há dois tipos de ordem, uma emergente e uma imposta;  cosmos  e  taxis , respectivamente, usando a terminologia grega. A primeira refere-se a uma ordem resultante da interacção dos indivíduos, orgânica, herdeira de tradições e costumes incorporados na sociedade, mas adaptável; uma  grown order . A segunda refere-se a uma ordem criada, imp...

Quando o combate aperta e a febre aumenta, nem todos somos intolerantes e iliberais

O recentemente eleito presidente do CDS entusiasmou o pavilhão de exposições de Aveiro no passado Sábado. Com um discurso empolgado, acusando a esquerda de caricaturar a direita, gritou palavras que, não sendo suas, resultaram muito bem: “[na boca das esquerdas] quando o combate aperta e a febre aumenta, até fascistas somos todos!” Eu estava lá e aplaudi. Afastado há mais de 20 anos da vida partidária, abri uma excepção a esta regra e fui ao Congresso do CDS. Fi-lo porque o momento era crítico, o líder era bom e o projecto era nobre. O momento era crítico porque a ameaça que pairava sobre o CDS era grande; o líder era bom, porque o João Almeida, que apoiei, é um político de diálogo, de síntese, responsável e com uma visão de serviço público da política; e o projecto era nobre, porque a moção que apresentámos ao Congresso, escrita a muitas e muito competentes mãos, visava endereçar respostas e definir prioridades úteis aos anseios dos portugueses e a Portugal. O projecto que era ...

Eu, Conservador

Se tivesse que apresentar razões para explicar uma disposição, diria então que sou conservador por cinco razões principais. Primeiro porque sou  realista .  O que é  é-o em função de uma miríade de interacções humanas, entre pessoas diferentes, sedimentado pela tradição e pelos costumes e isso tanto pode correr bem como pode correr mal. O Homem não é, portanto, definitivamente bom, mas também não é irremediavelmente mau. Tem afeições e desejos, cobiças e ódios, quer em direcção de boas obras quer em direcção de más. Umas vezes soma, outras subtrai. É nesta natureza que reside a sua humanidade. Projectos políticos que a queiram mudar — rumo, por exemplo, a um ‘Homem Novo’ — são projectos políticos irrealistas e, pelo que aprendemos com a História, irresponsáveis. Para dizer o mínimo. Segundo, porque amo o  Presente . Porque é no  Presente  que está o que existe e é o que existe que se pode amar. Como nos lembram as sábias palavras de Oakeshott: “usar ...

Gentlemen, you may smoke​: Rebelião numa era pós-Lockeana

Eduardo VII, chegado ao trono, proclamou ​ Gentlemen, you may smoke ​, pondo termo a uma proibição imposta por sua mãe Vitória e recuperando um velho direito e um sempre actual prazer. Hoje, mais de um século depois, esta prática é menos uma Liberdade, exercida como direito, e mais uma liberalidade, exercida — ainda — como concessão. John Locke, pensador decisivo para a edificação da Democracia Liberal e do Ocidente como os conhecemos, reconheceu ao Homem três direitos naturais: a ​Liberdade​, a ​Vida e a Propriedade​. Talvez não seja muito exagerado dizer, porém, que estamos hoje a viver numa era pós-Lockeana. A ​Propriedade erode-se, pela mão da poderosa autoridade fiscal, nos montantes que cobra, na omnipresença que impõe e na coerção que usa. No caso do tabaco, para não nos afastarmos do tema que aqui nos traz, entre imposto especial e IVA, cerca de 80% do preço é imposto. Nisto há a tributação ​normal sobre o consumo e a ​neo litaniae sanctorum ​da saúde ...

Boris Johnson, o farol

Boris Johnson é uma referência cada vez mais inexorável e inspiradora para os defensores da Democracia Liberal; e sobremaneira para Liberais e Conservadores. De palhaço a mentiroso, de incompetente a irresponsável, de  buffon  a Trump, ouvimos tudo sobre Boris Johnson. Poucos, porém, se deram ao trabalho de o compreender melhor. Poucos se deram ao trabalho de perceber porque é que Boris tem um busto de Péricles no seu gabinete, ou porque é que prefere a Grécia (na verdade Atenas) a Roma. Poucos se deram ao trabalho de ler o que ele escreve e como escreve. A maior parte ficou-se pelos  gags , pela cabeleira loura despenteada, optando sempre pela caricatura em detrimento do real. Em 90 dias Boris foi abandonado por colegas de partido, boicotado pelo parlamento, impedido de ir a eleições, impedido de cumprir a vontade popular expressa em referendo nacional com uma participação de 72%, condenado em tribunal, gozado por chefes de estado europeus, negado na intenção de um ...

“Papel? Qual papel?”

Há uma discussão que o país tarda em fazer, agudizando com essa omissão um dos seus maiores problemas estruturais: o peso do Estado. A discussão do número de funcionários – que a esquerda acha sempre poucos e a direita acha sempre muitos – é tanto mais estéril quanto menos nos perguntarmos qual a sua utilidade. Quando antes do Verão a crise da greve do transporte das matérias perigosas incendiou o país, discutiram-se alguns aspectos importantes e aprenderam-se algumas coisas interessantes: da obsolescência da lei da greve à lição de que a esquerda está sempre, sempre do lado dos trabalhadores… porquanto esses estejam sindicalizados na CGTP. Porém, no meio de tanto ruído, passou ao lado da discussão o debate sobre a marca de um Estado omnipresente e omnipotente, que vai muito para além do que uma economia livre e competitiva desejaria e onde nada se faz sem um papel com a assinatura de um burocrata. Há uns anos o Gato Fedorento popularizou uma rábula que fi...