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Mensagens

A mostrar mensagens de janeiro, 2020

Quando o combate aperta e a febre aumenta, nem todos somos intolerantes e iliberais

O recentemente eleito presidente do CDS entusiasmou o pavilhão de exposições de Aveiro no passado Sábado. Com um discurso empolgado, acusando a esquerda de caricaturar a direita, gritou palavras que, não sendo suas, resultaram muito bem: “[na boca das esquerdas] quando o combate aperta e a febre aumenta, até fascistas somos todos!” Eu estava lá e aplaudi. Afastado há mais de 20 anos da vida partidária, abri uma excepção a esta regra e fui ao Congresso do CDS. Fi-lo porque o momento era crítico, o líder era bom e o projecto era nobre. O momento era crítico porque a ameaça que pairava sobre o CDS era grande; o líder era bom, porque o João Almeida, que apoiei, é um político de diálogo, de síntese, responsável e com uma visão de serviço público da política; e o projecto era nobre, porque a moção que apresentámos ao Congresso, escrita a muitas e muito competentes mãos, visava endereçar respostas e definir prioridades úteis aos anseios dos portugueses e a Portugal. O projecto que era ...

O Sporting-Benfica sob a égide de Santa Priscila

Hoje, Sábado, bem a propósito, a liturgia católica celebra Santa Priscila, mártir dos primeiros tempos do cristianismo. Priscila, ainda jovem, foi condenada à morte no anfiteatro romano, devendo ser devorada por leões. Quando, porém, estes foram libertados para a atacar, ao contrário do que a turba esperava, os grandes felinos prostraram-se diante dela e lamberam-lhe os pés. Foi então devolvida ao cárcere onde a decapitaram e o seu corpo ficou vigiado por uma águia, que lhe protegeu o corpo de predadores necrófagos, até ser finalmente enterrada. A noite passada em Alvalade, parece, nem foi das piores. Só houve rebentamento de petardos nas bancadas, antecipações noticiosas — horas a fio de directos — a exibirem forças policiais a acompanharem claques, cordões de segurança a separarem adeptos,  jaulas  de segurança para delimitarem espaços. Enfim, o novo normal do futebol português. Quem é que, no seu são juízo, vai e leva a família a este estado de sítio? O futebol já me...

Eu, Conservador

Se tivesse que apresentar razões para explicar uma disposição, diria então que sou conservador por cinco razões principais. Primeiro porque sou  realista .  O que é  é-o em função de uma miríade de interacções humanas, entre pessoas diferentes, sedimentado pela tradição e pelos costumes e isso tanto pode correr bem como pode correr mal. O Homem não é, portanto, definitivamente bom, mas também não é irremediavelmente mau. Tem afeições e desejos, cobiças e ódios, quer em direcção de boas obras quer em direcção de más. Umas vezes soma, outras subtrai. É nesta natureza que reside a sua humanidade. Projectos políticos que a queiram mudar — rumo, por exemplo, a um ‘Homem Novo’ — são projectos políticos irrealistas e, pelo que aprendemos com a História, irresponsáveis. Para dizer o mínimo. Segundo, porque amo o  Presente . Porque é no  Presente  que está o que existe e é o que existe que se pode amar. Como nos lembram as sábias palavras de Oakeshott: “usar ...

Gentlemen, you may smoke​: Rebelião numa era pós-Lockeana

Eduardo VII, chegado ao trono, proclamou ​ Gentlemen, you may smoke ​, pondo termo a uma proibição imposta por sua mãe Vitória e recuperando um velho direito e um sempre actual prazer. Hoje, mais de um século depois, esta prática é menos uma Liberdade, exercida como direito, e mais uma liberalidade, exercida — ainda — como concessão. John Locke, pensador decisivo para a edificação da Democracia Liberal e do Ocidente como os conhecemos, reconheceu ao Homem três direitos naturais: a ​Liberdade​, a ​Vida e a Propriedade​. Talvez não seja muito exagerado dizer, porém, que estamos hoje a viver numa era pós-Lockeana. A ​Propriedade erode-se, pela mão da poderosa autoridade fiscal, nos montantes que cobra, na omnipresença que impõe e na coerção que usa. No caso do tabaco, para não nos afastarmos do tema que aqui nos traz, entre imposto especial e IVA, cerca de 80% do preço é imposto. Nisto há a tributação ​normal sobre o consumo e a ​neo litaniae sanctorum ​da saúde ...

Boris Johnson, o farol

Boris Johnson é uma referência cada vez mais inexorável e inspiradora para os defensores da Democracia Liberal; e sobremaneira para Liberais e Conservadores. De palhaço a mentiroso, de incompetente a irresponsável, de  buffon  a Trump, ouvimos tudo sobre Boris Johnson. Poucos, porém, se deram ao trabalho de o compreender melhor. Poucos se deram ao trabalho de perceber porque é que Boris tem um busto de Péricles no seu gabinete, ou porque é que prefere a Grécia (na verdade Atenas) a Roma. Poucos se deram ao trabalho de ler o que ele escreve e como escreve. A maior parte ficou-se pelos  gags , pela cabeleira loura despenteada, optando sempre pela caricatura em detrimento do real. Em 90 dias Boris foi abandonado por colegas de partido, boicotado pelo parlamento, impedido de ir a eleições, impedido de cumprir a vontade popular expressa em referendo nacional com uma participação de 72%, condenado em tribunal, gozado por chefes de estado europeus, negado na intenção de um ...