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O Sporting-Benfica sob a égide de Santa Priscila

Hoje, Sábado, bem a propósito, a liturgia católica celebra Santa Priscila, mártir dos primeiros tempos do cristianismo. Priscila, ainda jovem, foi condenada à morte no anfiteatro romano, devendo ser devorada por leões. Quando, porém, estes foram libertados para a atacar, ao contrário do que a turba esperava, os grandes felinos prostraram-se diante dela e lamberam-lhe os pés. Foi então devolvida ao cárcere onde a decapitaram e o seu corpo ficou vigiado por uma águia, que lhe protegeu o corpo de predadores necrófagos, até ser finalmente enterrada.
A noite passada em Alvalade, parece, nem foi das piores. Só houve rebentamento de petardos nas bancadas, antecipações noticiosas — horas a fio de directos — a exibirem forças policiais a acompanharem claques, cordões de segurança a separarem adeptos, jaulas de segurança para delimitarem espaços. Enfim, o novo normal do futebol português. Quem é que, no seu são juízo, vai e leva a família a este estado de sítio?
O futebol já me interessou mais, é certo; e o lugar comum, entre os meus amigos, de que a razão disso reside no meu sportinguismo comatoso — que infelizmente o resultado no campo e as cenas na bancada deste derby reforçam — não é totalmente desprovido de verdade, admito. Mas as principais causas são outras e estão há vários anos à vista. Ontem, infelizmente, foi só mais uma vez a regra, que teima em não ter excepção.
A violência crescente entre os adeptos, que no caso destes dois clubes já foi por duas vezes mortal, onde deveria reinar a sã disputa. A ignominiosa escalada verbal de acusações por parte dos dirigentes, fontes de acrimónia e exemplos de irregularidades, onde deveria residir a moderação e a seriedade. A verborreica animosidade de comentadores, que diariamente destroem a confiança na verdade desportiva e o bom gosto pela modalidade, onde deveria imperar o desportivismo e o respeito. O beneplácito de uma fraca comunicação social, ávida de mais circo e menos pão, onde deveria haver serviço público. Tudo isto não é novo e não parece querer mudar.
Norbert Elias e Eric Dunning, na primeira metade do século passado, escreveram um conjunto de ensaios sobre a Busca da Excitação através do desporto. A tese central apontava para o fenómeno desportivo como libertação de tensão numa sociedade crescentemente civilizada e contida. O que parece assim funcionar como válvula de escape pode bem crescer na directa proporção do controlo e contenção social forçada. Talvez não fosse mau termos uma sociedade mais livre e espontânea e com menos tensões acumuladas, e um desporto mais amistoso e menos bárbaro. Mas isto está mais próximo de wishful thinking que de cenário verosímil.
No fim do dia sobra-nos Santa Priscila, que é hoje a triste metáfora de um futebol injustamente condenado por pérfidos poderosos, vilipendiado por fracos fãs e cuspido por cacofónicos comentadores. Aos nobres símbolos de outrora grandes agremiações de interesse público, o leão do Sporting e a águia do Benfica, parece restar velar, triste e pacientemente, um futebol feito mártir.
Parabéns ao Benfica.
[Publicado, em 18 de Janeiro de 2020, no Observador: O Sporting-Benfica sob a égide de Santa Priscila ]

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