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A mostrar mensagens de fevereiro, 2020

A direita, entre o cosmos e taxis [Parte I: os princípios]

O título deste artigo pode bem induzir o leitor mais incauto a pensar que a direita deve escolher entre abrir-se ao cosmos, ao outro e ao imenso, ou fechar-se entre os seus e caber num táxi; ou, vá, em dois ou três. Isso também é verdade, e até pode encontrar correspondência na segunda parte deste artigo (os fins), mas não é esse o ponto que pretendo explorar nesta primeira (os princípios). Hayek, no segundo capítulo do seu  Law, Legislation and Liberty , desenvolve um tema especialmente caro às direitas, que porventura nunca como agora – pelo menos nos últimos 50 anos – foi tão fracturante: a ordem. De acordo com o autor, há dois tipos de ordem, uma emergente e uma imposta;  cosmos  e  taxis , respectivamente, usando a terminologia grega. A primeira refere-se a uma ordem resultante da interacção dos indivíduos, orgânica, herdeira de tradições e costumes incorporados na sociedade, mas adaptável; uma  grown order . A segunda refere-se a uma ordem criada, imp...

Homero morreu, Vergílio também e eu já não me estou a sentir nada bem…

Leio no  The Telegraph  que a Universidade de Oxford se prepara para remover Homero e Vergílio do  curriculum  obrigatório do curso de Estudos Clássicos. A bem da diversidade, segundo parece. Fazem bem. Afinal quem é que hoje em dia quer aprender o que quer que seja com homens, brancos e ocidentais? Quem, para além da encantadora Daisy Florence Dunn, claro. Esta jovem e respeitada classista diz que a decisão é uma “ideia terrível”; que é como “remover a Bíblia do estudo de Teologia”. Perdão?! A Bíblia? Rio da ingenuidade da Daisy. Não, não rio. Choro, ao seu lado, da zombaria que o seu estertor motivará na turba. E segredo-lhe ao ouvido que use antes as pérolas à volta do pescoço, no lugar de as lançar aos porcos. Por falar em porcos, ou em comida melhor dizendo: no ano passado, em Cambridge, um grupo de alunos vegetarianos e vegans sentiram-se  importunados  com a presença, na sala de refeições, de um quadro do sec. XVII do flamengo Frans Snyders. O qua...

A avó Matilde quer morrer…

Cuando yo caiga, como fruto maduro del árbol de la vida, dejadme allí mismo, donde yo caiga, para que me abrace el sol y el viento y la luna, que la vida me devore mordisco tras mordisco.(*) A avó Matilde (**) nasceu no mesmo dia que Karol Wojtyla; “aquele senhor de branco” que celebrava o aniversário no mesmo dia que a avó, era a piada que dizíamos sempre para seu pequeno escândalo e grande diversão de todos os outros. Tê-la lá em casa a dormir, com os seus roncos sonoros, imprevisíveis e descompassados, era uma experiência única, que nos divertia à tarde e exasperava à noite. A avó adoeceu. Muito. Irreversivelmente. E as dores aumentaram. Insuportavelmente. A morte estava ali e ela queria que viesse rápida para que assim pudesse ir em paz. Libertando-nos a todos do que considerava ser um fardo injusto para nós e ignominioso para ela. Isso apesar da coragem daquele “homem de branco” que tinha nascido no mesmo dia que ela e que tinha dado um exemplo de dignidade imensa ...

Reforma da Administração Pública: 35 mil milhões de razões e mais uma

O Orçamento de Estado para 2020 prevê uma despesa de cerca de  23.500 milhões de euros  para pessoal e 11.500 milhões de euros para custos intermédios; cerca de 35.000 milhões de euros, portanto, para o funcionamento da máquina do Estado. Considerando as receitas – basicamente impostos e taxas – na ordem dos 95.000 milhões de euros, estamos a falar de 37% da receita arrecadada. Se lhe juntarmos os 40.000 milhões de prestações sociais (42%) temos cerca de 80% da receita. Num tempo em que os portugueses suportam a maior carga fiscal da história recente e onde as notícias sobre a falência dos serviços públicos proliferam, e a erosão da autoridade do Estado – sem ser na função da cobrança – se agudiza, torna-se ainda mais urgente o que já quase se transformou numa anedota da política portuguesa: a reforma da Administração Pública. Infelizmente os “debates”, as “negociações” e sobretudo as greves à sexta-feira,  como a do passado dia 31 , parecem aos olhos do público cent...