Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de julho, 2019

#6 [Retratos dos nossos] Angola, 1954

[Retratos dos nossos] Angola, 1954 Descarregaram-nos cá. Os nossos velhos traziam no estômago um nó, no coração um aperto e na cabeça uma ilusão. Estavam longe de adivinhar que 20 anos mais tarde o calvário libertador em que até esse momento a sua vida se transformará terminará de forma devastadora. Sobrar-lhes-ão as memórias - repetidas, recontadas e reinventadas, ad nauseum, nos almoços de Domingo - de uma felicidade conquistada a pulso no degredo do Império; mas morrerão infelizes e desamparados no degredo da Europa. Na mesma terra madrasta que os viu nascer.

#5 [Retratos dos nossos] Trás-os-montes, Carrazeda de Ansiães, 1954

[Retratos dos nossos] Trás-os-montes, Carrazeda de Ansiães, 1954 O castanheiro centenário marcava a paisagem e a aldeia. Naqueles tempos não havia nada mais de que nos pudessemos orgulhar, para lá daquele castanheiro. Era, em boa verdade, a única coisa bela e a única coisa boa. Tudo o resto era uma existência miserável. Do amor - aquele que cantam os poetas - nunca lhe vimos, eu e os meus irmãos, sequer a sombra; nem o de mãe. O pastoreio era doloroso; com os pés descalços, no campo, não há flauta de pan que alivie a dor. A taberna do Jaquim era fétida e sombria e nós, com a nossa idade, nem sequer lá podiamos entrar. A água para a cozinha e para as lavagens - poucas - era transportada à mão, numa bacia, da fonte da aldeia até ao casebre desgraçado onde viviamos.

#4 [Retratos dos nossos] Angola, 1958

[Retratos dos nossos] Angola, 1958 À mingua de água, a trabalhar no campo, agitavamos com a mão a água do canal de rega que vinha de longe. A mesma água por onde tinham passado, em manada, os animais horas antes. Agitavamos e, como que limpa por esse gesto, bebiamo-la saciando a sede.

#3 A avó Matilde tinha tantos anos quanto Karol Wojtyla

A avó Matilde tinha tantos anos quanto Karol Wojtyla se este ainda fosse vivo. Tê-la lá em casa a dormir era uma experiência única, que nos divertia a todos à tarde e exasperava à noite; e não era por causa do preço das horas extraordinárias e trabalho nocturno devidas aos jardineiros do Palácio de Queluz, que pareciam ter-se mudado também lá para casa, enquanto cortavam a relva de todos os jardins do palácio ao mesmo tempo.

#2 “Tomai, Senhor, e recebei…”

“Tomai, Senhor, e recebei…” - procurava acalmar o nervo com a fórmula a que se habituara. Procurar a calma – mais que o sentido das coisas – era um esforço, uma disciplina a que, quotidianamente, tinha de se sujeitar. A força com que lhe apetecia bater-lhe, no pináculo da ira, era a que pedia para se domar e calar. A religiosidade e a relação com o Divino é tão antiga quanto o homem; uma herança natural da sua própria condição, dizem. Mas natural, para si, era o fervor da ira a subir-lhe à cabeça, ou, nos momentos menos irados, os caminhos percorridos nos terrenos conhecidos da maledicência. Numa e noutra condição era aí que satisfazia as necessidades – ou amainava os tormentos – do ego. O pecado o seu território; a virtude o seu horizonte. Longínquo, seguramente. A fé trouxe-lhe o imperativo da humildade e da paciência. Mas ele sabia que para lá chegar tinha de convocar toda a razão a si.

#1 Heitor estava sentado na cama

Heitor estava sentado na cama, mergulhado naquele torpor de fronteira; entre a espertina de quem acordou às 3.47 da manhã sem conhecer razão para tal, e o sono que naturalmente àquela hora era suposto sentir. E sentia. O espírito – como de há tanto tempo a esta parte – impeliu-o a questionar-se sobre o seu propósito. Heitor queria uma vocação, mas por esta altura da vida já se contentava com uma utilidade. As madrugadas são terreno fértil para estas introspecções como todo s bem sabemos, por lá termos passado alguma vez na vida. Heitor gostaria de escrever, mas tinha a lucidez de se saber na escrita veículo de uma voz pretensiosa, cheia de vírgulas, numa narrativa que se arrastava para lado nenhum. Pouco tinha para contar e os jogos florais com que se entretinha, brincando com paronímias em frases que só a ele, e apenas no exacto momento em que as escrevia, faziam sentido, eram suficiente para saber que esse não seria o seu caminho. Ou isso, ou um radical escrúpulo a que, não ...