Heitor estava sentado na cama, mergulhado naquele torpor de fronteira; entre a espertina de quem acordou às 3.47 da manhã sem conhecer razão para tal, e o sono que naturalmente àquela hora era suposto sentir. E sentia.
O espírito – como de há tanto tempo a esta parte – impeliu-o a questionar-se sobre o seu propósito. Heitor queria uma vocação, mas por esta altura da vida já se contentava com uma utilidade. As madrugadas são terreno fértil para estas introspecções como todos bem sabemos, por lá termos passado alguma vez na vida.
Heitor gostaria de escrever, mas tinha a lucidez de se saber na escrita veículo de uma voz pretensiosa, cheia de vírgulas, numa narrativa que se arrastava para lado nenhum. Pouco tinha para contar e os jogos florais com que se entretinha, brincando com paronímias em frases que só a ele, e apenas no exacto momento em que as escrevia, faziam sentido, eram suficiente para saber que esse não seria o seu caminho.
Ou isso, ou um radical escrúpulo a que, não poucas vezes, se sujeitava. Ultrapassando assim, nestes sombrios momentos do ego, a fronteira mais longínqua da humildade, para mergulhar nesse impiedoso excesso de rigor que os homens às vezes se impõem.
Adormeceu por fim. Antes olhou para o relógio, para ver que horas já eram, mas quando pela manhã acordou, já não se lembrava das horas que viu, nem do tempo que esteve acordado.
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