Avançar para o conteúdo principal

#2 “Tomai, Senhor, e recebei…”

“Tomai, Senhor, e recebei…” - procurava acalmar o nervo com a fórmula a que se habituara. Procurar a calma – mais que o sentido das coisas – era um esforço, uma disciplina a que, quotidianamente, tinha de se sujeitar. A força com que lhe apetecia bater-lhe, no pináculo da ira, era a que pedia para se domar e calar. A religiosidade e a relação com o Divino é tão antiga quanto o homem; uma herança natural da sua própria condição, dizem. Mas natural, para si, era o fervor da ira a subir-lhe à cabeça, ou, nos momentos menos irados, os caminhos percorridos nos terrenos conhecidos da maledicência. Numa e noutra condição era aí que satisfazia as necessidades – ou amainava os tormentos – do ego. O pecado o seu território; a virtude o seu horizonte. Longínquo, seguramente. A fé trouxe-lhe o imperativo da humildade e da paciência. Mas ele sabia que para lá chegar tinha de convocar toda a razão a si.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Baixos salários em Portugal? Kafka explica

Kafka, num dos seus aforismos, declara que “sua exaustão é a do gladiador após a luta, seu trabalho foi caiar o canto do escritório de um funcionário”. Gosto de pensar que Kafka, que morreu em 1924, estava, na verdade, a falar de João K., um justo e dinâmico empresário, que vive em Portugal em 2019. O Manel Samsa é casado com a Kátia Samsa e têm 2 filhos. O Manel é desenhador e ganha € 2.000/mensais e € 4,77 euros de subsídio de refeição, o que lhe dá mais cerca de € 100 por mês. Entre IRS e Segurança Social desconta € 626. Traz para casa, todos os meses, € 1.474,17 líquidos. João K., o patrão do Manel, para que este leve os € 1.474,17 para casa, paga € 2.575,17 (correspondentes ao vencimento base, ao subsídio de refeição e à TSU). Ou seja, mais € 1.101,00 que aquilo que o Manel efectivamente recebe. João K., satisfeito com os bons resultados que a empresa atingiu no ano transacto e com o contributo decisivo que o Manel deu para os mesmos, resolveu aumentá-lo...

Salvar o Capitalismo (pela mão da Doutrina Social da Igreja)

“Ninguém se salva sozinho”, disse há poucos dias um velho doente, à chuva, sozinho, quando a noite caía sobre uma invulgarmente vazia Praça de São Pedro. Uma imagem pungente que confirma o que desde tempos imemoriais a Humanidade sabe: que “não é conveniente que o homem esteja só” (Gn 2,18). O velho na praça é o Santo Padre Francisco. Hoje, entretanto, passam 15 anos sobre a morte de um outro homem, de um outro velho, que também muito ensinou ao mundo e que vale a pena relembrar: São João Paulo II. Quis o acaso – e o Covid19 – que o mundo vivesse este ano a Quaresma numa agrura há muito não experimentada pelo Ocidente, em quarentena forçada “dentro de casa”. Porém, quando hoje o mundo vive em pânico e se fecha sobre si – as famílias em sua casa e os países nas suas fronteiras – por causa de uma ameaça global à saúde pública “as decisões (…) não pode[m] deixar de abranger as imensas multidões de famintos, de mendigos, sem-tecto, sem assistência médica e, sobretudo, sem esperança num ...

O Sporting-Benfica sob a égide de Santa Priscila

Hoje, Sábado, bem a propósito, a liturgia católica celebra Santa Priscila, mártir dos primeiros tempos do cristianismo. Priscila, ainda jovem, foi condenada à morte no anfiteatro romano, devendo ser devorada por leões. Quando, porém, estes foram libertados para a atacar, ao contrário do que a turba esperava, os grandes felinos prostraram-se diante dela e lamberam-lhe os pés. Foi então devolvida ao cárcere onde a decapitaram e o seu corpo ficou vigiado por uma águia, que lhe protegeu o corpo de predadores necrófagos, até ser finalmente enterrada. A noite passada em Alvalade, parece, nem foi das piores. Só houve rebentamento de petardos nas bancadas, antecipações noticiosas — horas a fio de directos — a exibirem forças policiais a acompanharem claques, cordões de segurança a separarem adeptos,  jaulas  de segurança para delimitarem espaços. Enfim, o novo normal do futebol português. Quem é que, no seu são juízo, vai e leva a família a este estado de sítio? O futebol já me...