Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

“Papel? Qual papel?”

Há uma discussão que o país tarda em fazer, agudizando com essa omissão um dos seus maiores problemas estruturais: o peso do Estado. A discussão do número de funcionários – que a esquerda acha sempre poucos e a direita acha sempre muitos – é tanto mais estéril quanto menos nos perguntarmos qual a sua utilidade. Quando antes do Verão a crise da greve do transporte das matérias perigosas incendiou o país, discutiram-se alguns aspectos importantes e aprenderam-se algumas coisas interessantes: da obsolescência da lei da greve à lição de que a esquerda está sempre, sempre do lado dos trabalhadores… porquanto esses estejam sindicalizados na CGTP. Porém, no meio de tanto ruído, passou ao lado da discussão o debate sobre a marca de um Estado omnipresente e omnipotente, que vai muito para além do que uma economia livre e competitiva desejaria e onde nada se faz sem um papel com a assinatura de um burocrata. Há uns anos o Gato Fedorento popularizou uma rábula que fi...

O critério 5.7: Conservadores, Liberais, Democratas-Cristãos e Sociais-Democratas (não socialistas), uni-vos!

Acabados de sair de uma revolução que muitos em Abril de 1974 quiseram que fosse uma Revolução (à francesa), mas que a maior parte dos portugueses no 25 Novembro de 1975 assegurou que fosse apenas uma (gloriosa)  r evolução, Portugal elegeu, em 1980, apenas 6 anos depois de Abril, a Aliança Democrática (AD), um projecto político de centro direita alicerçado numa ideia libertadora e modernizadora da sociedade portuguesa. Mais recentemente, em 2011, depois de 7 anos de governação socialista, com a duplicação da dívida pública, a quase insolvência das contas públicas e o humilhante pedido de assistência externa, foi a convergência útil, pragmática, responsável e competente do PSD e do CDS que deu a resposta que o país urgentemente necessitava. Seguramente a braços com as suas diferenças, com os seus normais conflitos e também com os seus erros, foram o PSD e o CDS que conseguiram cumprir o pesado caderno de encargos legado pelo governo anterior do Partido Socialista e que consegui...

O novo líder do CDS? Bassânio, claro!

Portugal, 1976 O CDS vai para congresso. E muitos vêem-no, pelo risco de extinção, como o mais dramático e decisivo congresso desde o cerco a que o partido foi sujeito no Palácio de Cristal, cerco esse levado a cabo pelos antepassados políticos de alguns dos que hoje suportam a minoria socialista no poder. Nesse momento grave da fundação da democracia, os valorosos estoicos que lá estavam resistiram e, chamando a si o que os unia, centraram-se no essencial. O CDS não só sobreviveu como se tornou peça determinante na formação da democracia portuguesa. Veneza, circa 1598 N’​ O Mercador de Veneza ​, de William Shakespeare, Nerissa, dama de companhia de Pórcia, uma rica herdeira de Belmonte em busca de marido, diz que “Não é pouca felicidade acertar com a justa medida. Depressa o supérfluo envelhece, mas a moderação, pelo contrário, é origem de longa vida”, abrindo assim, com esta sábia tirada, a conversa sobre quem virá a ser o digno pretendente escolhido para consorte da sua Dama. E...

#3.1 A avó Matilde

A avó Matilde nasceu - para sua honra tão desmesurada, que a mesma ao fim de uns anos passou a ser entendida como soberba pelos mais pacientes e demência pelos restantes - no mesmo dia que Karol Wojtyla; "aquele senhor de branco" que celebrava o aniversário no mesmo dia que a avó Matilde, era a piada que dizíamos sempre para pequeno escândalo da avó e grande diversão de todos os outros. Tê-la lá em casa a dormir, com os seus roncos sonoros, imprevisíveis e descompassados, era uma experiência única, que nos divertia à tarde e exasperava à noite. 

Hércules, o gigante Gerião e a Administração Pública

Hércules , no seu décimo trabalho, foi incumbido pelo rei  Eurystheus  de roubar o gado a  Gerião  e de lho trazer à corte.  Gerião  era um gigante com três troncos, seis braços e seis pernas, armado com três elmos, três escudos e três lanças. Antes de matar  Gerião , Hércules matou  Orthrus , um cão feroz de duas cabeças, e um centauro, o pastor  Eurytion . Depois disto, que já não foi pouco, quando a caminho da corte de  Eurystheus , ainda teve de matar  Cacus,  um gigante cuspidor de fogo que lhe roubou algumas cabeças de gado. Finalmente,  Hera , que não gostava nada de Hércules, ainda o puniu com mais duas desmoralizantes adversidades. Tudo isto  Hércules  venceu. O que é que a Administração Pública – e quem a quer reformar – tem a aprender com este décimo trabalho de  Hércules ? Antes de mais – e quando falamos de gigantismo e força talvez não seja apenas uma (in)feliz coin...

Baixos salários em Portugal? Kafka explica

Kafka, num dos seus aforismos, declara que “sua exaustão é a do gladiador após a luta, seu trabalho foi caiar o canto do escritório de um funcionário”. Gosto de pensar que Kafka, que morreu em 1924, estava, na verdade, a falar de João K., um justo e dinâmico empresário, que vive em Portugal em 2019. O Manel Samsa é casado com a Kátia Samsa e têm 2 filhos. O Manel é desenhador e ganha € 2.000/mensais e € 4,77 euros de subsídio de refeição, o que lhe dá mais cerca de € 100 por mês. Entre IRS e Segurança Social desconta € 626. Traz para casa, todos os meses, € 1.474,17 líquidos. João K., o patrão do Manel, para que este leve os € 1.474,17 para casa, paga € 2.575,17 (correspondentes ao vencimento base, ao subsídio de refeição e à TSU). Ou seja, mais € 1.101,00 que aquilo que o Manel efectivamente recebe. João K., satisfeito com os bons resultados que a empresa atingiu no ano transacto e com o contributo decisivo que o Manel deu para os mesmos, resolveu aumentá-lo...

#6 [Retratos dos nossos] Angola, 1954

[Retratos dos nossos] Angola, 1954 Descarregaram-nos cá. Os nossos velhos traziam no estômago um nó, no coração um aperto e na cabeça uma ilusão. Estavam longe de adivinhar que 20 anos mais tarde o calvário libertador em que até esse momento a sua vida se transformará terminará de forma devastadora. Sobrar-lhes-ão as memórias - repetidas, recontadas e reinventadas, ad nauseum, nos almoços de Domingo - de uma felicidade conquistada a pulso no degredo do Império; mas morrerão infelizes e desamparados no degredo da Europa. Na mesma terra madrasta que os viu nascer.