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Mensagens

Hércules, o gigante Gerião e a Administração Pública

Hércules , no seu décimo trabalho, foi incumbido pelo rei  Eurystheus  de roubar o gado a  Gerião  e de lho trazer à corte.  Gerião  era um gigante com três troncos, seis braços e seis pernas, armado com três elmos, três escudos e três lanças. Antes de matar  Gerião , Hércules matou  Orthrus , um cão feroz de duas cabeças, e um centauro, o pastor  Eurytion . Depois disto, que já não foi pouco, quando a caminho da corte de  Eurystheus , ainda teve de matar  Cacus,  um gigante cuspidor de fogo que lhe roubou algumas cabeças de gado. Finalmente,  Hera , que não gostava nada de Hércules, ainda o puniu com mais duas desmoralizantes adversidades. Tudo isto  Hércules  venceu. O que é que a Administração Pública – e quem a quer reformar – tem a aprender com este décimo trabalho de  Hércules ? Antes de mais – e quando falamos de gigantismo e força talvez não seja apenas uma (in)feliz coin...

Baixos salários em Portugal? Kafka explica

Kafka, num dos seus aforismos, declara que “sua exaustão é a do gladiador após a luta, seu trabalho foi caiar o canto do escritório de um funcionário”. Gosto de pensar que Kafka, que morreu em 1924, estava, na verdade, a falar de João K., um justo e dinâmico empresário, que vive em Portugal em 2019. O Manel Samsa é casado com a Kátia Samsa e têm 2 filhos. O Manel é desenhador e ganha € 2.000/mensais e € 4,77 euros de subsídio de refeição, o que lhe dá mais cerca de € 100 por mês. Entre IRS e Segurança Social desconta € 626. Traz para casa, todos os meses, € 1.474,17 líquidos. João K., o patrão do Manel, para que este leve os € 1.474,17 para casa, paga € 2.575,17 (correspondentes ao vencimento base, ao subsídio de refeição e à TSU). Ou seja, mais € 1.101,00 que aquilo que o Manel efectivamente recebe. João K., satisfeito com os bons resultados que a empresa atingiu no ano transacto e com o contributo decisivo que o Manel deu para os mesmos, resolveu aumentá-lo...

#6 [Retratos dos nossos] Angola, 1954

[Retratos dos nossos] Angola, 1954 Descarregaram-nos cá. Os nossos velhos traziam no estômago um nó, no coração um aperto e na cabeça uma ilusão. Estavam longe de adivinhar que 20 anos mais tarde o calvário libertador em que até esse momento a sua vida se transformará terminará de forma devastadora. Sobrar-lhes-ão as memórias - repetidas, recontadas e reinventadas, ad nauseum, nos almoços de Domingo - de uma felicidade conquistada a pulso no degredo do Império; mas morrerão infelizes e desamparados no degredo da Europa. Na mesma terra madrasta que os viu nascer.

#5 [Retratos dos nossos] Trás-os-montes, Carrazeda de Ansiães, 1954

[Retratos dos nossos] Trás-os-montes, Carrazeda de Ansiães, 1954 O castanheiro centenário marcava a paisagem e a aldeia. Naqueles tempos não havia nada mais de que nos pudessemos orgulhar, para lá daquele castanheiro. Era, em boa verdade, a única coisa bela e a única coisa boa. Tudo o resto era uma existência miserável. Do amor - aquele que cantam os poetas - nunca lhe vimos, eu e os meus irmãos, sequer a sombra; nem o de mãe. O pastoreio era doloroso; com os pés descalços, no campo, não há flauta de pan que alivie a dor. A taberna do Jaquim era fétida e sombria e nós, com a nossa idade, nem sequer lá podiamos entrar. A água para a cozinha e para as lavagens - poucas - era transportada à mão, numa bacia, da fonte da aldeia até ao casebre desgraçado onde viviamos.

#4 [Retratos dos nossos] Angola, 1958

[Retratos dos nossos] Angola, 1958 À mingua de água, a trabalhar no campo, agitavamos com a mão a água do canal de rega que vinha de longe. A mesma água por onde tinham passado, em manada, os animais horas antes. Agitavamos e, como que limpa por esse gesto, bebiamo-la saciando a sede.

#3 A avó Matilde tinha tantos anos quanto Karol Wojtyla

A avó Matilde tinha tantos anos quanto Karol Wojtyla se este ainda fosse vivo. Tê-la lá em casa a dormir era uma experiência única, que nos divertia a todos à tarde e exasperava à noite; e não era por causa do preço das horas extraordinárias e trabalho nocturno devidas aos jardineiros do Palácio de Queluz, que pareciam ter-se mudado também lá para casa, enquanto cortavam a relva de todos os jardins do palácio ao mesmo tempo.

#2 “Tomai, Senhor, e recebei…”

“Tomai, Senhor, e recebei…” - procurava acalmar o nervo com a fórmula a que se habituara. Procurar a calma – mais que o sentido das coisas – era um esforço, uma disciplina a que, quotidianamente, tinha de se sujeitar. A força com que lhe apetecia bater-lhe, no pináculo da ira, era a que pedia para se domar e calar. A religiosidade e a relação com o Divino é tão antiga quanto o homem; uma herança natural da sua própria condição, dizem. Mas natural, para si, era o fervor da ira a subir-lhe à cabeça, ou, nos momentos menos irados, os caminhos percorridos nos terrenos conhecidos da maledicência. Numa e noutra condição era aí que satisfazia as necessidades – ou amainava os tormentos – do ego. O pecado o seu território; a virtude o seu horizonte. Longínquo, seguramente. A fé trouxe-lhe o imperativo da humildade e da paciência. Mas ele sabia que para lá chegar tinha de convocar toda a razão a si.