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A direita, entre o cosmos e taxis [Parte I: os princípios]

O título deste artigo pode bem induzir o leitor mais incauto a pensar que a direita deve escolher entre abrir-se ao cosmos, ao outro e ao imenso, ou fechar-se entre os seus e caber num táxi; ou, vá, em dois ou três. Isso também é verdade, e até pode encontrar correspondência na segunda parte deste artigo (os fins), mas não é esse o ponto que pretendo explorar nesta primeira (os princípios). Hayek, no segundo capítulo do seu  Law, Legislation and Liberty , desenvolve um tema especialmente caro às direitas, que porventura nunca como agora – pelo menos nos últimos 50 anos – foi tão fracturante: a ordem. De acordo com o autor, há dois tipos de ordem, uma emergente e uma imposta;  cosmos  e  taxis , respectivamente, usando a terminologia grega. A primeira refere-se a uma ordem resultante da interacção dos indivíduos, orgânica, herdeira de tradições e costumes incorporados na sociedade, mas adaptável; uma  grown order . A segunda refere-se a uma ordem criada, imp...

Homero morreu, Vergílio também e eu já não me estou a sentir nada bem…

Leio no  The Telegraph  que a Universidade de Oxford se prepara para remover Homero e Vergílio do  curriculum  obrigatório do curso de Estudos Clássicos. A bem da diversidade, segundo parece. Fazem bem. Afinal quem é que hoje em dia quer aprender o que quer que seja com homens, brancos e ocidentais? Quem, para além da encantadora Daisy Florence Dunn, claro. Esta jovem e respeitada classista diz que a decisão é uma “ideia terrível”; que é como “remover a Bíblia do estudo de Teologia”. Perdão?! A Bíblia? Rio da ingenuidade da Daisy. Não, não rio. Choro, ao seu lado, da zombaria que o seu estertor motivará na turba. E segredo-lhe ao ouvido que use antes as pérolas à volta do pescoço, no lugar de as lançar aos porcos. Por falar em porcos, ou em comida melhor dizendo: no ano passado, em Cambridge, um grupo de alunos vegetarianos e vegans sentiram-se  importunados  com a presença, na sala de refeições, de um quadro do sec. XVII do flamengo Frans Snyders. O qua...

A avó Matilde quer morrer…

Cuando yo caiga, como fruto maduro del árbol de la vida, dejadme allí mismo, donde yo caiga, para que me abrace el sol y el viento y la luna, que la vida me devore mordisco tras mordisco.(*) A avó Matilde (**) nasceu no mesmo dia que Karol Wojtyla; “aquele senhor de branco” que celebrava o aniversário no mesmo dia que a avó, era a piada que dizíamos sempre para seu pequeno escândalo e grande diversão de todos os outros. Tê-la lá em casa a dormir, com os seus roncos sonoros, imprevisíveis e descompassados, era uma experiência única, que nos divertia à tarde e exasperava à noite. A avó adoeceu. Muito. Irreversivelmente. E as dores aumentaram. Insuportavelmente. A morte estava ali e ela queria que viesse rápida para que assim pudesse ir em paz. Libertando-nos a todos do que considerava ser um fardo injusto para nós e ignominioso para ela. Isso apesar da coragem daquele “homem de branco” que tinha nascido no mesmo dia que ela e que tinha dado um exemplo de dignidade imensa ...

Reforma da Administração Pública: 35 mil milhões de razões e mais uma

O Orçamento de Estado para 2020 prevê uma despesa de cerca de  23.500 milhões de euros  para pessoal e 11.500 milhões de euros para custos intermédios; cerca de 35.000 milhões de euros, portanto, para o funcionamento da máquina do Estado. Considerando as receitas – basicamente impostos e taxas – na ordem dos 95.000 milhões de euros, estamos a falar de 37% da receita arrecadada. Se lhe juntarmos os 40.000 milhões de prestações sociais (42%) temos cerca de 80% da receita. Num tempo em que os portugueses suportam a maior carga fiscal da história recente e onde as notícias sobre a falência dos serviços públicos proliferam, e a erosão da autoridade do Estado – sem ser na função da cobrança – se agudiza, torna-se ainda mais urgente o que já quase se transformou numa anedota da política portuguesa: a reforma da Administração Pública. Infelizmente os “debates”, as “negociações” e sobretudo as greves à sexta-feira,  como a do passado dia 31 , parecem aos olhos do público cent...

Quando o combate aperta e a febre aumenta, nem todos somos intolerantes e iliberais

O recentemente eleito presidente do CDS entusiasmou o pavilhão de exposições de Aveiro no passado Sábado. Com um discurso empolgado, acusando a esquerda de caricaturar a direita, gritou palavras que, não sendo suas, resultaram muito bem: “[na boca das esquerdas] quando o combate aperta e a febre aumenta, até fascistas somos todos!” Eu estava lá e aplaudi. Afastado há mais de 20 anos da vida partidária, abri uma excepção a esta regra e fui ao Congresso do CDS. Fi-lo porque o momento era crítico, o líder era bom e o projecto era nobre. O momento era crítico porque a ameaça que pairava sobre o CDS era grande; o líder era bom, porque o João Almeida, que apoiei, é um político de diálogo, de síntese, responsável e com uma visão de serviço público da política; e o projecto era nobre, porque a moção que apresentámos ao Congresso, escrita a muitas e muito competentes mãos, visava endereçar respostas e definir prioridades úteis aos anseios dos portugueses e a Portugal. O projecto que era ...

O Sporting-Benfica sob a égide de Santa Priscila

Hoje, Sábado, bem a propósito, a liturgia católica celebra Santa Priscila, mártir dos primeiros tempos do cristianismo. Priscila, ainda jovem, foi condenada à morte no anfiteatro romano, devendo ser devorada por leões. Quando, porém, estes foram libertados para a atacar, ao contrário do que a turba esperava, os grandes felinos prostraram-se diante dela e lamberam-lhe os pés. Foi então devolvida ao cárcere onde a decapitaram e o seu corpo ficou vigiado por uma águia, que lhe protegeu o corpo de predadores necrófagos, até ser finalmente enterrada. A noite passada em Alvalade, parece, nem foi das piores. Só houve rebentamento de petardos nas bancadas, antecipações noticiosas — horas a fio de directos — a exibirem forças policiais a acompanharem claques, cordões de segurança a separarem adeptos,  jaulas  de segurança para delimitarem espaços. Enfim, o novo normal do futebol português. Quem é que, no seu são juízo, vai e leva a família a este estado de sítio? O futebol já me...

Eu, Conservador

Se tivesse que apresentar razões para explicar uma disposição, diria então que sou conservador por cinco razões principais. Primeiro porque sou  realista .  O que é  é-o em função de uma miríade de interacções humanas, entre pessoas diferentes, sedimentado pela tradição e pelos costumes e isso tanto pode correr bem como pode correr mal. O Homem não é, portanto, definitivamente bom, mas também não é irremediavelmente mau. Tem afeições e desejos, cobiças e ódios, quer em direcção de boas obras quer em direcção de más. Umas vezes soma, outras subtrai. É nesta natureza que reside a sua humanidade. Projectos políticos que a queiram mudar — rumo, por exemplo, a um ‘Homem Novo’ — são projectos políticos irrealistas e, pelo que aprendemos com a História, irresponsáveis. Para dizer o mínimo. Segundo, porque amo o  Presente . Porque é no  Presente  que está o que existe e é o que existe que se pode amar. Como nos lembram as sábias palavras de Oakeshott: “usar ...