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Mensagens

Diário Corona - Dia 1

Dia 1 Toda a gente em casa(s); estamos em mais que uma. A trabalhar, a estudar, a ler, a jogar, a ver televisão. E o Diogo3 à solta. A meio do dia pensei se o Covid19 não seria mais fácil de controlar. Para já, fico com o Diogo3. #DiarioCorona

De quarentena na Quaresma

Quero começar por fazer aqui um elogio público à lucidez do Sr. Primeiro-Ministro. Há poucas horas – a unidade de medida adequada – veio apelar que o povo português confiasse nas autoridades da saúde. O SNS está repleto de funcionários públicos extraordinários, de grande abnegação, imensa competência, elevada resiliência e diga-se, porque não é dizer pouco a meio de uma  pandemia  com contornos ainda mal definidos, extrema coragem pessoal. Este é, no que importa mais imediatamente, um caso de Saúde Pública. E nada melhor que nos entregarmos nas mãos de quem sabe. Isto porque estamos em tempo de excepção, já que o efeito desta situação, do ponto de vista das liberdades, merecerá, no fim, um outro debate importante. Mas isso, e a economia, terá de ficar para depois. Sendo, porém, Portugal, um país onde tudo tem tutela estatal, este é também, inexoravelmente, um caso de gestão política. O nosso habitual elo mais fraco. Vejamos, então, se as Autoridades da Saúde têm as melhor...

O fraco Homem faz forte o fraco Estado

1 O Homem Português desistiu de viver.  Matem-me, que isto não é vida! , gritou. Paz à sua alma. No passado dia 20 o parlamento aprovou cinco projectos-lei visando legalizar a eutanásia. Muitos dos opositores apressaram-se a dizer que os deputados não estavam mandatados para tomar esta decisão, e que a mesma estava a ser tomada nas costas dos portugueses. Têm razão. A decisão foi tomada nas costas dos portugueses, mas pelo menos cumpriu a última vontade do Homem Português. 2 Francisco Lucas Pires, de cognome  O Liberal , é muitas vezes recordado pela célebre afirmação de que  ao princípio não era o Estado mas o Homem. É esta uma verdade em função da qual será o Estado a ter de se humanizar – não o Homem quem tem de se estadualizar.  Dificilmente 2020 o poderia ter contrariado de forma mais cruel, qual O’Brien a Winston Smith em 1984. O Homem Português quando nasce fica a saber que só pode ter, no máximo, dois nomes próprios e quatro apelidos, mas que está ob...

A direita, entre cosmos e taxis [Parte II: os fins]

Na primeira parte deste artigo vimos por que razão os partidos de direita deveriam recusar ser palcos de guerras culturais, evitar tentações ideológicas e procurar alinhar-se com o espírito do tempo presente. Em síntese, os partidos de direita, mais do que procurarem a imposição de um outro quadro de valores, alternativo ao da esquerda, deverão ter a sua acção assente na defesa da liberdade de cada pessoa viver como quiser. Sabemos como nestes tempos esta posição tem sido acusada por muitos de relativismo moral, mas tal não só é ignominioso, como é profundamente enganador. Querer forçar, em nome de um projecto  by design  – de tipo  taxis , voltando a Hayek – a sociedade a ser de determinada maneira costuma resultar em catástrofe. Oakeshott, insuspeito de esquerdismo, dizia que a conjugação de normatividade e idealismo redunda em tirania. Talvez valha reconhecer que a humanidade nunca viveu tão bem como agora, nunca atingiu níveis generalizados de conforto tão elevad...

A direita, entre o cosmos e taxis [Parte I: os princípios]

O título deste artigo pode bem induzir o leitor mais incauto a pensar que a direita deve escolher entre abrir-se ao cosmos, ao outro e ao imenso, ou fechar-se entre os seus e caber num táxi; ou, vá, em dois ou três. Isso também é verdade, e até pode encontrar correspondência na segunda parte deste artigo (os fins), mas não é esse o ponto que pretendo explorar nesta primeira (os princípios). Hayek, no segundo capítulo do seu  Law, Legislation and Liberty , desenvolve um tema especialmente caro às direitas, que porventura nunca como agora – pelo menos nos últimos 50 anos – foi tão fracturante: a ordem. De acordo com o autor, há dois tipos de ordem, uma emergente e uma imposta;  cosmos  e  taxis , respectivamente, usando a terminologia grega. A primeira refere-se a uma ordem resultante da interacção dos indivíduos, orgânica, herdeira de tradições e costumes incorporados na sociedade, mas adaptável; uma  grown order . A segunda refere-se a uma ordem criada, imp...

Homero morreu, Vergílio também e eu já não me estou a sentir nada bem…

Leio no  The Telegraph  que a Universidade de Oxford se prepara para remover Homero e Vergílio do  curriculum  obrigatório do curso de Estudos Clássicos. A bem da diversidade, segundo parece. Fazem bem. Afinal quem é que hoje em dia quer aprender o que quer que seja com homens, brancos e ocidentais? Quem, para além da encantadora Daisy Florence Dunn, claro. Esta jovem e respeitada classista diz que a decisão é uma “ideia terrível”; que é como “remover a Bíblia do estudo de Teologia”. Perdão?! A Bíblia? Rio da ingenuidade da Daisy. Não, não rio. Choro, ao seu lado, da zombaria que o seu estertor motivará na turba. E segredo-lhe ao ouvido que use antes as pérolas à volta do pescoço, no lugar de as lançar aos porcos. Por falar em porcos, ou em comida melhor dizendo: no ano passado, em Cambridge, um grupo de alunos vegetarianos e vegans sentiram-se  importunados  com a presença, na sala de refeições, de um quadro do sec. XVII do flamengo Frans Snyders. O qua...

A avó Matilde quer morrer…

Cuando yo caiga, como fruto maduro del árbol de la vida, dejadme allí mismo, donde yo caiga, para que me abrace el sol y el viento y la luna, que la vida me devore mordisco tras mordisco.(*) A avó Matilde (**) nasceu no mesmo dia que Karol Wojtyla; “aquele senhor de branco” que celebrava o aniversário no mesmo dia que a avó, era a piada que dizíamos sempre para seu pequeno escândalo e grande diversão de todos os outros. Tê-la lá em casa a dormir, com os seus roncos sonoros, imprevisíveis e descompassados, era uma experiência única, que nos divertia à tarde e exasperava à noite. A avó adoeceu. Muito. Irreversivelmente. E as dores aumentaram. Insuportavelmente. A morte estava ali e ela queria que viesse rápida para que assim pudesse ir em paz. Libertando-nos a todos do que considerava ser um fardo injusto para nós e ignominioso para ela. Isso apesar da coragem daquele “homem de branco” que tinha nascido no mesmo dia que ela e que tinha dado um exemplo de dignidade imensa ...